Review de álbum clássico: Nebraska @ Bruce Springsteen – 1982

nebraska bruce springsteenVocê já tentou gritar dentro de um travesseiro? É isso.

“Nebraska” é o disco em que Bruce Springsteen decidiu trocar a muralha sonora da E Street Band por uma fita cassete surrada, um gravador de mesa e uma alma em frangalhos. Se os álbuns anteriores dele eram como épicos cinematográficos dirigidos por Scorsese em IMAX, esse aqui é um curta-metragem de terror psicológico filmado num VHS com trilha de ranger de cadeira e solidão.

Springsteen gravou esse álbum sozinho, em casa, enquanto provavelmente olhava pela janela com um café frio na mão e pensava: “e se eu pegasse toda a euforia do rock americano… e a envenenasse com niilismo?” O resultado? Uma obra-prima minimalista que parece ter sido gravada dentro da caixa torácica de um fantasma.

É folk? É country? É um crime não resolvido com trilha sonora? Sim.

Tecnicamente é folk, mas chamar “Nebraska” de folk é como chamar George Carlin de “comediante stand-up”. Há uma estrutura, sim, mas também tem raiva, introspecção, crítica social e a constante sensação de que algo muito errado está acontecendo logo abaixo da superfície — tipo uma reunião de condomínio com segredos homicidas.

“Nebraska”, a faixa-título, começa com a doçura de uma menina girando uma batuta e termina num massacre. É como se A Noviça Rebelde virasse True Detective sem você perceber. “Johnny 99” e “Highway Patrolman” seguem a mesma lógica: baladas sobre desespero, lealdade duvidosa e pessoas tentando fazer o certo num mundo onde o certo parece uma piada de mau gosto.

A magia está no som cru. Literalmente. É a fita demo que virou o disco. Porque toda tentativa de “melhorar” o som só deixava tudo pior — tipo tentar fazer um filme do Tarantino com filtro do Instagram.

A estética lo-fi aqui não é um recurso hipster. É necessidade narrativa. Cada eco, cada reverb acidental, cada respiração presa no microfone transmite um isolamento quase físico. Ouvir “Nebraska” é como se conectar com um transmissor de rádio abandonado no meio do deserto, captando confissões que não eram pra você ouvir. E no meio dessa transmissão, você percebe: talvez ninguém esteja ouvindo mesmo.

Um carro, uma estrada, e o vazio entre os dois.

Nos discos anteriores, o carro era um símbolo de fuga. Em Nebraska, ele virou sarcófago sobre rodas. “Used Cars” mostra o pai, o filho e o abismo entre os dois — tudo dentro de um Ford velho que fede a frustração. “State Trooper” é o auge da tensão: uma estrada deserta, um riff hipnótico, e Bruce gritando como se tivesse acabado de ver Deus… e ele estivesse armado.

E não tem refrão pra cantar junto. Não tem catarse. Não tem “Born to Run”. Só a estrada, o eco e a certeza de que não vai ter final feliz. Nem final, na verdade. Só a próxima faixa, tão opressiva quanto a anterior.

“Reason to Believe” fecha o disco tentando ser otimista, mas falha — lindamente. Depois de uma sequência de histórias sobre alienação, violência e culpa, o narrador fala de morte e separação como quem comenta o clima. A “razão para acreditar” não é uma luz no fim do túnel; é a lâmpada piscando no necrotério emocional de Springsteen. E você agradece por isso.

Nebraska é um erro que deu certo.

Springsteen não sabia o que estava fazendo. Só sabia o que estava sentindo. E, ironicamente, ao desligar o mundo, ele nos entregou uma das obras mais conectadas com a essência do ser humano moderno: perdido, confuso e tentando desesperadamente encontrar sentido na estática.

Não é só um disco. É um confessionário portátil. Um estudo de caso sobre a América quebrada e os fantasmas que ela cria. Ou, como diria George Carlin: é o som do “sonho americano” acordando num beco sem saída e perguntando onde diabos foi parar a promessa.

Você não ouve Nebraska. Você entra nele. E, se não tomar cuidado, talvez nem consiga sair.